Você se sente uma impostora, ou impostor?

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Você consegue avaliar e reconhecer o mérito de seu próprio trabalho?

Se você às vezes sente-se fora de sintonia com seu trabalho, se às vezes seus objetivos não te animam tanto quanto você acha que deveriam, ou se de noite, na hora de dormir, algum tipo de vazio, de descontentamento, de saudade de si, ou uma sensação de não ter feito aquilo que devia ter sido feito, assoma à sua consciência, porque não retomar alguma prática que você ama? Explore a relação que essa prática tem com o seu projeto, de escrita ou qualquer prática criativa, como as de minhas amigas e meus amigos arquitetos e designers. Volte a desenhar à mão, ou escrever à mão… Faça o que for preciso…

mas faça todo dia….

Se sente que precisa da energia de um impulso inicial, que tal dedicar um tempo exclusivo a seu trabalho e inscrever-se no Workshop de Escrita: As 5 etapas de Produtividade na Escrita – que ocorre neste sábado, 05 de Outubro? (Informações aqui!)

Alguma vez você já sentiu uma sensação estranha, como se seu trabalho não fosse legítimo o suficiente, como se você devesse ter feito algo a mais, se empenhado mais, sofrido mais para merecer ter o mérito do seu trabalho reconhecido? Sentiu-se fora de sintonia com o que você fez, ou está fazendo?

O compositor russo Dmitry Shostakovich* (1906 – 1975) sofria deste mal, por uma razão peculiar. Conta-se que ele era capaz de conceituar suas composições e então escrevê-las extremamente rápido – ele conseguia às vezes escrever vinte ou trinta páginas praticamente sem correções em um dia.

Eis o que o próprio compositor dizia a respeito dessa sua característica:

“Me preocupo com a rapidez com a qual eu componho” ….

“Indubitavelmente isto é mau. Ninguém deveria compor tão rápido como eu faço. A composição é um processo sério, e, nas palavras de uma bailarina amiga minha, ‘você não pode continuar a galope’. Eu componho a uma velocidade diabólica a não consigo parar… É exaustivo, muito desagradável, e no fim do dia perde-se a confiança no resultado.”

Desconfiar do resultado… Por que isso acontece com alguns de nós, no processo de escrita, ou de projeto?

Talvez Shostakovich não se desse conta, ou não desse valor, ao imenso trabalho a que ele se dedicava a maior parte do tempo. Pessoas próximas a ele, como sua irmã mais jovem, o musicologista Alexei Ikonnikov ou seu colega e amigo Mikhail Meyerovich recordavam, Shostakovich parecia estar compondo o tempo todo, movendo as mãos e expressando de algum modo grandes “tensões internas”.

O compositor talvez não avaliasse a quantidade de atenção que ele provavelmente  despendia em suas composições ao longo dos dias, mesmo quando não estava sentado escrevendo ou tocando.

Atenção é um dos elementos-chave na avaliação de nosso trabalho. E aqui me interesso mais em falar da auto-avaliação. Isso porque, se você se sente comprometida ou comprometido de algum modo com seu trabalho, poderá receber todo o reconhecimento externo do mundo, e ainda assim não se sentir internamente satisfeita ou satisfeito, ou em paz com seu próprio trabalho.

Quanta atenção você dedica a seus projetos ao longo do dia? E quanta atenção a coisas triviais e sem importância? Um bom indicativo que estamos na direção de fazer um bom trabalho, é pensar com frequência a respeito. Estar em sintonia com as coisas, as pessoas e as circunstâncias que possam trazer novos insights para o que você está fazendo. Estar fora de sintonia pode nos levar a sofrer da “Síndrome do impostor”.

Glenn Kurtz em seu livro Practicing: A Musician’s Return to Music, escreve: “Na mente de cada músico esconde-se o medo de que a prática seja apenas tarefismo, e de que ou a pessoa nasce para seu instrumento ou é uma impostora”.**

Kurtz desistiu muito cedo de sua carreira musical, em favor de um emprego convencional, por ter se angustiado irremediavelmente não apenas com seu progresso, mas com o senso de que a ambição e as expectativas não eram o suficiente para motivá-lo a continuar, a despeito de ter tido algum êxito, chegando a ganhar competições.

Como vejo isso? Às vezes percebo nas minhas e nos meus estudantes, e ouso dizer também em amigas e amigos, e mais frequentemente ainda em mim mesma, que “ter um objetivo” (ambições), ou desejar reconhecimento (expectativas), não são motivações suficientemente fortes para nos fazer desejar de fato encaminhar nossos projetos.

Não creio que sejamos pessoas piores ou mais irresponsáveis porque temos andado gastando tempo dando atenção a trivialidades. Talvez às vezes precisemos disso para recuperar o prazer na vida! Talvez tenhamos perdido de vista aquilo que nossa alma pede, que olhemos para dentro. Shostakovich parecia estar imerso dentro de si por muito tempo….

Como fazer para nos reconectarmos com nossa prática? Com nossa escrita, com nossos projetos, de um modo que, não importa de que modo ele seja avaliado externamente, internamente você sabe o significado e a relevância que aquela prática tem ou teve para você?

Glenn Kurtz conta em seu livro como, depois de anos de um trabalho em que se sentia um morto-vivo, ele “deixou sua vida falar”, e retornou a seu grande amor: a música. Mas esse retorno já não tinha conexão com a desejo de alcançar um objetivo externo, ou obter algum tipo de reconhecimento. O retorno se deu a partir de um profundo compromisso com a prática – “um processo de reavaliação contínua, uma tentativa de alcançar crescimento por meio da repetição”, um ato delicado que “nos ensina a doçura, a doçura amarga do prazer do desenvolvimento, do crescimento, da mudança” – dia após dia.

Le Corbusier, um dos mais influentes e controversos arquitetos do século XX,  por exemplo, isolava-se todas as manhãs para pintar, uma atividade a qual ele dava o significado de “soul searching” (busca da alma)..***

Estabelecer um ritual diário de prática pode ser encarado como uma atividade de busca da própria alma. Não estou falando de uma “rotina de trabalho”, mas de um ritual de prática. Se sentir alguma inspiração nestas palavras, reflita a respeito….

Bom trabalho!

Ana Gabriela

  • As informações e o depoimento a respeito do trabalho de Shostakovich utilizadas aqui foram obtidas no livro de Mason Currey, “Daily Rituals”.

** Os comentários sobre o trabalho de Glenn Kurtz foram obtidos a partir da excelente resenha de Maria Popova em seu site brainpickings.org. http://www.brainpickings.org/2015/01/07/glenn-kurtz-practicing/

*** Sobre essas atividades de Le Corbusier, a referência é o livro de Simon Richards, “Le Corbusier and the Concept of Self”.

Fonte da imagem: http://www.mchampetier.com/sitephp/images/9f_Le_Corbusier_fev089.jpg – Le Corbusier – Trois Verres D’aperitif, 1960.

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